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sexta-feira, 11 de junho de 2010

De S. João a S. Pedro…

Donde vindes São João
De manhã tão molhadinho?
Venho de saltar fogueiras
E de apanhar rosmaninho.

No ar há alegria!
A pequenada busca nos pinhais vizinhos do povoado o rosmaninho que trará muita animação às ruas da aldeia, nesta noite festiva e especial.
Festa do fogo no paganismo, através da qual os povos primitivos celebravam com enormes fogueiras a passagem do solstício de Verão, o cristianismo transformou-a em festa religiosa honrando S. João Baptista. No entanto, o elemento pagão ainda hoje permanece vivo nas tradições populares com as fogueiras de S. João.
Nos campos espetam-se, ao início da noite, ramos de codeço ou hastes de castanheiro para afugentar as bruxas, para livrar o milho das “bichas” ou para abençoar e fazer produzir as colheitas desse ano.

Duas noites há no ano,
Que alegram o coração:
É a noite de Natal
E a noite de S. João.

Noite serrada, acendem-se fogueiras, queimam-se rosmaninhos e a alegria estende-se e contagia a alma e os corações de toda a gente. Esquecem-se tristezas, desgraças, preocupações e tantas outras agruras do dia-a-dia. Os mais audazes saltam por sobre o fumo intenso e perfumado que o rosmaninho verde provoca para “tirarem a ronha”, que é como quem diz, para se purificarem e exorcizarem de todos os males. E cantam; e dançam; numa alegria total e contagiante.
Pelas ruas da aldeia, ouvem-se bandos de mulheres com suas vozes romanceadas a cantar:

De S. João a S. Pedro
Quatro, cinco dias são;
Ala, ala S. João ala, ala.
Este tempo é que nos regala.

Regala-me o teu cantar
O teu cantar me regala;
Ala, ala S. João ala, ala
Este tempo é que nos regala.

É a noite de S. João!
O mártir que baptizou Jesus nas águas do Jordão e que terminou a sua vida de profeta decapitado, por um acto de vingança de Herodíade, segunda mulher de Herodes Antipas, que induziu Salomé, sua filha, a pedir a cabeça de João durante uma festa de anos do seu padrasto, transforma-se na noite de 23 para 24 de Junho em Santo casamenteiro, em Santo protector dos namorados, em Santo travesso e brincalhão:

S. João é milagroso,
É Santo casamenteiro;
Vamos hoje à sua festa
A ver quem casa primeiro.

S João e mais S. Pedro,
Foram ambos ao pagode:
S. João acendeu lume,
E queimou o seu bigode.

Nesta noite que o povo simples e ingénuo continua a conotar com o amor, com a paixão, com os problemas do coração, as moças casadoiras, ansiosas por encontrar os seus bem amados, buscam as suas sortes amorosas por meio de “sortes” e mezinhas, apelando a S. João que interceda por elas. A “sorte” dos ovos é, talvez, a mais utilizada: na noite de S. João, mais precisamente à meia-noite, parte-se, cuidadosamente, um ovo de galinha e lança-se num copo cheio de água que se deixa ao relento. No dia seguinte, conforme o desenho da clara na água assim será a profissão do futuro namorado. Há jovens que ao procederem a este ritual dizem:

S. João, de Deus amado
S. João, de Deus querido
Dai-me a minha boa sorte
Neste copinho de vidro.

Outras procuram a sua sorte colocando-se à meia-noite em frente a um espelho, acendendo uma vela e descobrindo, à medida que na torre da igreja dão as doze badaladas, que rosto se irá reflectir no espelho pois, crêem, esse será o do seu amado. A folha da oliveira também prognostica amores, por isso há quem tente a sua sorte com três folhinhas de oliveira. Estas, depois de a moça dar um nome a cada uma delas, são lançadas ao lume dizendo-se:

Ó meu S. João, de Deus,
Ouvi-me que eu sou solteira;
Destinai o meu marido
Nestas folhas de oliveira.

A primeira folha que estalar dirá qual o nome do futuro marido. Mas não confiantes nestas sortes, ainda apelam, como quem reza, ao santinho:

Em louvor de S. João,
A ver se o meu amor
Me quer bem ou não!

Noite dentro, a festa continua. Desta vez quem impera são os rapazes. Revestindo-se de todas as artimanhas possíveis e imaginárias, roubam aos menos cautelosos vasos de flores, utensílios agrícolas, enfim, tudo o que lhes vier à mão. Geralmente, os vasos vão embelezar os degraus da igreja, o velho chafariz de granito ou a fonte medieval no centro da aldeia, enquanto os utensílios agrícolas são espalhados pelos locais mais improváveis, obrigando os donos a calcorrear, furiosamente, todos os caminhos da aldeia em busca do que é seu. Enfim, são as marcas de S. João para gáudio de uns e desespero de tantos!
É dia de S. João!
O orvalho da manhã é bendito por todos. Neste dia, e só nele, se atribuem poderes curativos e divinatórios à água. De novo o sagrado e o profano de mãos dadas.

São João é muito rico,
Tem cascatas carvalheiras,
Tem cravos e manjericos,
Orvalhadas e fogueiras.

O cheiro a rosmaninho ainda percorre a aldeia. Ainda há, aqui e ali, vestígios de uma festa que durou quase até ao amanhecer, trazendo nostalgia aos mais velhos e brincadeira, esperança e muita alegria aos mais jovens.


Maria Odete Madeira

_______________________________

Bibliografia:

. Lima, Fernando de Castro Pires de, S. João na Alma do Povo, Portucalense Editora, Porto, 1944;
. Dicionário da Bíblia e do Cristianismo, Vol. 28, Edição Correio da Manhã


sexta-feira, 7 de maio de 2010

AS MAIAS SÃO O SÍMBOLO DESTE MÊS.





Por todo o lado elas embelezam a paisagem, dando as boas vindas a este mês.
Segundo o povo português, no dia um de Maio devemos pendurá-las nas portas das nossas casas ou espalhá-las pelos campos, para que os lares e as sementeiras sejam abençoados e protegidos de todos os males.


O MÊS DE MAIO NO RIFONEIRO POPULAR

Maio claro e ventoso faz o ano rendoso
Maio come o trigo e Agosto bebe o vinho
Maio couveiro não é vinhateiro
Maio hortelão, muita palha pouco grão
Maio pardo faz o pão grado
Maio pardo e ventoso faz o ano formoso
Maio que não der trovoada não dá coisa estimada
O rocim em Maio trona-se cavalo
Pão tremez nem o comas nem o dês, mas guarda-o para Maio
Peixe de Maio a quem vo-lo pedir dai-o
Primeiro de Maio corre o boi e o veado
Quando Maio chegar quem não arou há-de arar
Quando Maio acha nado, tudo deixa espigado
Quem em Maio não merenda, aos finados se encomenda
Quem em Maio relva não tem pão nem erva
Quem quiser mal à sua vizinha, dê-lhe em Maio uma sardinha
Sáveis em Maio maleitas de todo o ano
Touro, galgo e barbo todos têm sazão em Maio
Uma água de Maio e três de Abril valem por mil
Viva o Maio carambola que ele vai jogando a bola

ECOS DA ENTRONIZAÇÃO NO RIO DE JANEIRO

O Almoxarife da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, "Grão Vasco", José Ernesto Pereira da Silva, aquando da sua deslocação ao Rio de Janeiro, foi agraciado com o Título de Sócio Honorário da Casa de Viseu no Rio de Janeiro. Aqui fica o registo desse momento.








ECOS DA IMPRENSA BRASILEIRA






segunda-feira, 19 de abril de 2010

CONFRARIAS


Desde há muitos séculos e pelos motivos mais diversos, o Homem, tal como hoje, teve necessidade de se agregar com os seus semelhantes.
O desejo de prestar auxílio, de sobreviver ou de regrar a conduta humana como meio de facilitar a vida em sociedade norteou a origem dessas comunidades.
É pois, com base nestas necessidades que surgem na Idade Média as confrarias. De carácter semi-laico ou semi-religioso, proliferam por toda a Europa no século XII, atingindo o seu apogeu no século XIII, muito graças à acção das ordens mendicantes destacando-se, neste caso, a ordem franciscana, a quem se deve a origem de muitas confrarias que então surgiram.
A ideologia cristã esteve na base da criação da maioria das confrarias medievais, erigidas ao redor de capelas e igrejas, cujo orago era também o seu patrono.
Segundo Pedro Penteado , existem vários tipos de confrarias, a saber:
— As de índole Penitencial, cuja acção é, essencialmente, de expiação dos pecados, recorrendo à flagelação ou a outras práticas disciplinares como forma de atenuar eventuais falhas cometidas;
— As Caritativas, centradas na prática da caridade e da beneficência cristãs, prestando auxílio aos mais necessitados (na morte, na doença, na pobreza, na solidão, entre tantas outras carências);
— As Devocionais, direccionadas para a celebração de uma devoção especial, como a Imaculada Conceição, por exemplo, e que visam, também, promover outras devoções como acontece com as confrarias religiosas encarregadas de promover o culto e a festa nos santuários;
— As de Ofícios que, apesar de terem na sua base um fim cultual, se preocupam com o reforço da sociabilidade e da integração profissional dos seus membros.

Após um longo período de quase total inércia, eis que nos finais do século XX o movimento confrádico ressurge e prolifera por todo o país a um ritmo acelerado. Para além da conotação religiosa que sempre esteve inerente às confrarias de outros tempos, o desejo de preservar, defender, promover e divulgar o que é nosso e melhor nos identifica, quer dentro quer além fronteiras, levou o Homem a unir-se, a criar as confrarias assumindo o compromisso de divulgar a sua Gastronomia, o seu Vinho, os seus Usos e Costumes, enfim as suas mais genuínas marcas culturais.
Em Viseu esse desejo fez nascer em 2002 a Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco” que, de acordo com o Art.º 3.º dos seus Estatutos, se vê obrigada a:

- “Promover e divulgar a gastronomia tradicional da Beira nas suas diversas componentes e bem assim os vinhos e bebidas espirituosas produzidas em terras beirãs”;
- “Investigar e pugnar pela genuinidade da culinária autóctone da Beira";
- “Patrocinar a recolha de usos e costumes tradicionais dando-lhe a respectiva divulgação”;
- “Incentivar a edição de trabalhos audiovisuais e escritos sobre cultura regional”;
- “Realizar acções de carácter cultural que consubstanciem a defesa e a preservação do património gastro-enófilo da Beira”;
- “Incrementar de forma pedagógica junto dos estabelecimentos de restauração e afins a preservação da gastronomia beirã”

Ao longo destes 7 anos de actividade, pensamos ter cumprido o objectivo primeiro que uniu tanta gente de boa vontade nesta tão nobre causa e, embora se tenha de debater com as dificuldades habituais nestes movimentos, esperamos que possa continuar a fazê-lo por muitos anos, pois a nossa Cultura é e será sempre a marca que nos distinguirá de todos os outros povos.


Maria Odete Madeira
(Chanceler-Mor da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, “Grão Vasco”


A titulo de curiosidade, aqui fica uma lista de algumas das várias publicações desta CONFRARIA



















terça-feira, 7 de abril de 2009

OVOS DA PÁSCOA


Ovos de Páscoa, que delícia!
Que sabor tão característico e apetecido nesta época do ano!
Esmeradamente, coloridos com cores garridas ou, simplesmente, tingidos com cascas de cebola – material de fácil acesso em todas as casas, ricas e pobres, das aldeias – folhas de hera, que lhes conferem uma tonalidade amarelada, ou beterraba, dando-lhes uma cor vermelha forte, surgem em todas as mesas na época festiva da Páscoa, em casa de cristãos e não cristãos.
As habitações, nesta quadra da Ressurreição do Cristo Crucificado, enchem-se de alegria e cor: ele são as aleluias e o alecrim, enfeitando portas e gradeamentos na recepção festiva à visita do Senhor Ressuscitado, ele é a laranja com o tostão cravado, por sobre alvas toalhas de linho, na mesa principal da casa, ele é o pão de ló, os folares da Páscoa, as amêndoas, os ovos tingidos…
Os nossos avós, tal como muitos de nós hoje, ao prepararem os ovos da Páscoa, decerto ignoravam a origem deste costume milenar, adoptado por diferentes culturas, crenças e religiões e alegremente posto em prática todos os anos, nesta época – o ovo é símbolo de vida, de nascimento e é natural que o povo tenha fixado a tradição na quadra Pascal, também ela plena deste espírito de ressurreição e vida (a título de curiosidade, este costume de origem não católica – há registos de oferendas de ovos entre os povos pagãos como símbolo comemorativo da chegada do equinócio da Primavera – passa oficialmente a ser símbolo católico no século XVIII, quando a Igreja o adopta como elemento de ressurreição e vida).
No entanto, a tradição de presentear a família e amigos com ovos coloridos, remonta aos chineses ancestrais e a época por eles escolhida para esta oferta era a comemoração da festa da Primavera – toda ela imbuída de sentimentos de vida, de renascimento, de esperança.
Adoptada, como já foi dito, por diferentes culturas, esta tradição correu mundo, mantendo-se até hoje.
No Egipto, as pessoas têm o hábito de distribuir ovos entre si, no início da Primavera, celebrando, festivamente, a chegada desta estação. Na Europa Ocidental, os ovos são cozidos e decorados com cores garridas, servindo, depois, para decorar as mesas ou serem ofertados a familiares e amigos no dia de Páscoa. Na Europa Oriental, existe o costume de as crianças esconderem um chapéu e, se o seu comportamento tiver sido bom ao longo do ano, encontrarão nele os ovos na noite anterior ao Domingo de Páscoa, como recompensa. Nos Estados Unidos, há o costume da “caça ao ovo” que, em algumas cidades, se transformou em autêntico evento comunitário. Os ovos são escondidos em casas, quintais e jardins, havendo uma verdadeira correria em busca deles. Na América Latina e Brasil, as crianças constroem ninhos de Páscoa que servem para o coelho – portador dos ovos da Páscoa e simbolizando, também, tempos de mudança ao sair da toca na época primaveril – pôr os ovos na madrugada da Páscoa. Na China celebra-se, no mesmo período, o chamado Ching-Ming ou seja, a festa da “Suprema Claridade” também conhecida como a festa da “Limpeza dos Túmulos”, levando milhares de chineses, em verdadeira romaria, aos túmulos dos seus entes mais queridos para os homenagear. Os túmulos são limpos, as pinturas reavivadas e as ofertas das mais variadas: incenso, bebidas, tabaco, patos e leitões assados, doces e outras tantas iguarias onde os ovos também imperam.
A tradição dos ovos de Páscoa, também foi apropriada pelo povo português. Desde há anos nas nossas casas, eles embelezam a mesa, eles são ofertados a familiares, a amigos e a afilhados – como elemento sagrado, como símbolo de vida ou, simplesmente, como uma das muitas tradições a preservar.

Maria Odete Nunes Madeira
Passos de Silgueiros, 12 de Fevereiro de 2007
(Chanceler-Mor da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, “Grão Vasco”)

segunda-feira, 16 de março de 2009

AMENTAR OU EMENTAR AS ALMAS

Quaresma, tempo de abstinência, reflexão, penitência mas tempo também de recordar quem partiu.
Um pouco por todo o lado, homens, nalgumas regiões, mulheres, noutras e homens e mulheres, noutras tantas, juntavam-se no período quaresmal para, diariamente, cantarem e rezarem às almas.
De essência cristã, a amenta, ementa ou encomendação das almas era uma das tradições quaresmais mais respeitadas e acarinhadas pelo povo português.
As almas dos entes queridos, sujeitas às penas do purgatório, necessitavam das preces dos vivos para alcançarem a vida eterna. Quaresma fora, em condições climatéricas tantas vezes adversas, o grupo da ementa das almas ia para a rua cantar e rezar às almas, no sentido de que, quem, no quentinho dos seus lares o ouvia, se lhe juntasse nas preces pela salvação de parentes e amigos falecidos:
“Ó irmãos que estão na cama
nesse sono tão profundo,
lembrai-vos das vossas almas
que lá estão no outro mundo.”
P. N. A. M.
Pouco antes da meia-noite, um a um o grupo ia-se concentrando no adro da igreja. Ninguém falava; ninguém olhava para trás. O medo impedia-os de quebrar a tradição; as almas penadas, os fantasmas, as figuras mais ou menos grotescas e fantasmagóricas que povoam as noites e o imaginário de tantos, rondavam o lugar esperando um deslize, atacando os incautos. Grupo completo, tocava a campainha e iniciava-se o ritual. Todos se benziam e o cântico começava:
“Na hora de Deus começo,
Pai, Filho e Espírito Santo
Por ser o primeiro verso
Que neste auditório canto.”
P. N. A. M.
Seguiam-se sete poisos. O mesmo ritual. Durante quarenta dias ouvia-se por toda a aldeia o cântico arrepiante e lúgubre do amentar das almas. Em casa, tremendo de medo por sob as cobertas, as pessoas rezavam, fervorosamente por pai, mãe, filho ou marido já desaparecidos. Em Sábado Maior tudo terminava em grande festa de alegria e Ressurreição. Durante o dia preparavam-se coroas, desfolhavam-se flores que iriam embelezar cada um dos sete poisos no final de cada cântico. O grupo finalizava o ritual na capelinha da Senhora da Guia, no bairro do Cimo da Aldeia. Terminado o amentar, ainda em silêncio, o Zé Alho, o mais velho do grupo, dava o tom e todos cantavam um cântico final a Maria, pedindo protecção para as suas próprias almas:
“Nome de Maria,
Que tão lindo é
Salvai a minha alma
Que ela Vossa é.”

Quaresma, quarenta dias de jejum e abstinência que medeiam entre a Quarta-Feira de Cinzas e a Páscoa, dia grande da festividade da Ressurreição de Cristo. Em termos bíblicos, o número quatro simboliza o universo material, as provações, dificuldades, sacrifícios, por que passa a Humanidade na sua passagem pelo mundo terreno.
Quaresma, quarenta dias de sacrifício, provação e penitência de Jesus no deserto.
Quaresma, quarenta dias de abstinência, reflexão e penitência dos crentes; quarenta dias de sacrifício e penitência pela salvação das almas; quarenta dias de sacrifício e penitência do grupo da amenta pela expiação das próprias falhas preparando, assim antecipadamente, a entrada no Céu quando a hora de cada um fosse chegando.

Maria Odete Madeira
Passos de Silgueiros, 2 de Março de 2009
(Chanceler-Mor da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, “Grão Vasco”)

domingo, 16 de novembro de 2008

SAO MARTINHO



Em tempos idos, o São Martinho, nas aldeias da Beira, comemorava-se durante três dias do mês de Novembro: o dia dez era, no dizer do povo, o dia do papas, o dia onze o do rapas e o doze o do lembes, numa alusão directa aos amantes do vinho, também conhecidos como os “Irmãos de São Martinho” que, ano após ano, com grande “solenidade” e aparato festivo, davam provas da sua devoção tradicional ao vinho, claro, celebrando esta data três dias seguidos!
Era nestes dias que se abriam os pipos e se experimentava o vinho novo pois lá diz o rifão “Pelo São Martinho vai à adega e enxerta o pipinho.”
Em casa dos avós do João, do Miguel e demais primos que com eles viviam, à lareira, pois o frio cortava a respiração, a pequenada fazia o tradicional magusto: como também diz o ditado, “No dia de São Martinho mata o teu porco, chega-te ao lume, assa castanhas e prova o teu vinho.” As castanhas eram assadas na caruma e acompanhadas com um pouco de água-pé que, por condescendência dos adultos, podia nesse dia ser bebida por todos, pois que “Água-pé, castanhas e vinho fazem uma boa festa pelo São Martinho.”
A irreverência infantil, levava-as, não raro, a cometer pequenas diabruras tradicionais deste período. Pela calada, enfarruscavam as mãos nas panelas de ferro de três pernas, negras dos muitos anos de uso, e enegreciam as caras dos presentes não escapando a esta partida os mais velhos, já se vê!
Já noite serrada, a pequenada, empanturrada de castanhas, ia para a rua, bem encapotada, não que o frio era mais que muito, aguardava no local previamente combinado a chegada do resto da maralha e com campainhas, compradas para este fim e guardadas em velhas arcas no sótão da casa, latas pequenas com pedrinhas dentro ou latas maiores a servirem de tambores, percorriam as ruas da aldeia a tocar e a cantar:

“São Martinho, castanhas e vinho,
vinho novo tem bonita cor,
apagai o fogo e dai-me calor!”

A algazarra era tal que nem os animais descansavam, no quentinho dos seus currais, no piso térreo das casas de habitação. Para a miudagem, isso era o menos importante; o principal era manter a tradição de pé e disso se encarregava ano após ano.
Horas volvidas, regressava cada um a sua casa cansado da correria pelas ruas da aldeia, mas feliz, pois o ritual aprendido dos seus avós tinha-se cumprido, uma vez mais.


Maria Odete Madeira
(Chanceler-Mor da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, “Grão Vasco”)



quinta-feira, 10 de julho de 2008

A LENDA DO VINHO DO DÃO




Há muitos, muitos anos fez Baco uma visita ao seu bom amigo Endovélico, o deus dos deuses da Lusitânia .
Atravessou serras, subiu, penosamente, ladeiras até chegar a terras banhadas por um rio a que os locais chamavam de Dão.
Perto daquele local encontrava-se um casal de lusitanos com seu filho, junto a uma pequena cabana de pedra e troncos.
Baco ao vê-los correu para eles gritando:
— Pelos deuses, tende piedade deste pobre caminhante e dai-me de beber!
O bom homem entrou na cabana e regressou com uma escudela de barro cozida ao sol, cheia de água.
— Água?! Acaso não tendes vinho?
O lusitano arregalou os olhos, cofiou a barba e disse, entre admirado e espantado:
— Vinho? O que vem a ser isso de vinho? Quereis vós comida?
E sem esperar resposta, entrou na cabana e voltou com uma perna de cabrito assada.
Baco comeu e à despedida, comovido pela generosa hospitalidade do bom luso, disse-lhe:
— Ainda um dia hás-de saber o que é o vinho. E, sem mais, partiu acenando um último adeus aos seus anfitriões.
Anos mais tarde, uma centúria romana marchava por terras lusas e, ao ver a cabana do lusitano, parou.
Os legionários deixaram a forma e cada um deles abriu uma vala na qual colocaram uma videira.
No final, voltaram à formatura e partiram tão silenciosamente como haviam chegado. Num dos bacelos deixaram uma tabuleta com a seguinte mensagem:
“Baco oferece reconhecido”.
A seu tempo, aquelas videiras deram o seu fruto que o luso, por intuição ou intervenção divina espremeu e deixou a repousar até ao Inverno seguinte. Quando, finalmente, o provou ficou maravilhado com tão delicioso néctar.
Assim, da generosidade de um pobre lusitano e do reconhecimento do bom Baco, nasceu o generoso e salutar Vinho do Dão.

(Capítulo de Verão/Dia Nacional do Vinho – 5 de Julho de 2008)
Adaptado por Maria Odete Madeira
(Chanceler-Mor da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, “Grão Vasco”)

sábado, 21 de junho de 2008

De São João a São Pedro

No ar há alegria!
A pequenada busca nos pinhais vizinhos do povoado o rosmaninho que trará muita animação às ruas da aldeia, nesta noite festiva e especial. Festa do fogo no paganismo, o cristianismo transformou-a em festa religiosa honrando S. João Baptista. No entanto, o elemento pagão ainda hoje permanece vivo nas tradições populares com as fogueiras de S. João.
Nos campos espetam-se, ao fim da tarde, ramos de codeço ou hastes de castanheiro para afugentar as bruxas, para livrar o milho das “bichas” ou para abençoar e fazer produzir as colheitas desse ano.
Noite serrada, acendem-se fogueiras, queimam-se rosmaninhos e a alegria estende-se e contagia a alma e os corações de toda a gente. Esquecem-se tristezas, desgraças, preocupações e tantas outras agruras do dia-a-dia. Os mais audazes saltam por sobre o fumo intenso e perfumado que o rosmaninho verde provoca para “tirarem a ronha”, que é como quem diz, para se purificarem e exorcizarem de todos os males. E cantam; e dançam; numa alegria total e contagiante.
Pelas ruas da aldeia, ouvem-se bandos de mulheres com suas vozes romanceadas a cantar:

De S. João a S. Pedro
Quatro, cinco dias são;
Ala, ala S. João ala, ala.
Este tempo é que nos regala.

Regala-me o teu cantar
O teu cantar me regala;
Ala, ala S. João ala, ala
Este tempo é que nos regala.

É a noite de S. João!
Nesta noite que o povo simples e ingénuo continua a conotar com o amor, com a paixão, com os problemas do coração, as moças casadoiras, ansiosas por encontrar os seus bem amados, buscam as suas sortes amorosas por meio de “sortes” e mezinhas. A “sorte” dos ovos é, talvez, a mais utilizada: na noite de S. João, mais precisamente à meia-noite, parte-se, cuidadosamente, um ovo de galinha e lança-se num copo cheio de água que se deixa ao relento. No dia seguinte, conforme o desenho da clara na água assim será a profissão do futuro namorado. Há jovens que ao procederem a este ritual dizem:

S. João, de Deus amado
S. João, de Deus querido
Dai-me a minha boa sorte
Neste copinho de vidro.

Outras procuram a sua sorte colocando-se à meia-noite em frente a um espelho, acendendo uma vela e descobrindo, à medida que na torre da igreja dão as doze badaladas, que rosto se irá reflectir no espelho pois, crêem, esse será o do seu amado. A folha da oliveira também prognostica amores, por isso há quem tente a sua sorte com três folhinhas de oliveira. Estas, depois de a moça dar um nome a cada uma delas, são lançadas ao lume dizendo-se:


Ó meu S. João, de Deus,
Ouvi-me que eu sou solteira;
Destinai o meu marido
Nestas folhas de oliveira.

A primeira folha que estalar dirá qual o nome do futuro marido. Mas não confiantes nestas sortes, ainda apelam, como quem reza, ao santinho:

Em louvor de S. João,
A ver se o meu amor
Me quer bem ou não!

Noite dentro, a festa continua. Desta vez quem impera são os rapazes. Revestindo-se de todas as artimanhas possíveis e imaginárias, roubam aos menos cautelosos vasos de flores, utensílios agrícolas, enfim, tudo o que lhes vier à mão. Geralmente, os vasos vão embelezar os degraus da igreja, o velho chafariz de granito ou a fonte medieval no centro da aldeia, enquanto os utensílios agrícolas são espalhados pelos locais mais improváveis, obrigando os donos a calcorrear, furiosamente, todos os caminhos da aldeia em busca do que é seu. Enfim, são as marcas de S. João para gáudio de uns e desespero de tantos!
É dia de S. João!
O cheiro a rosmaninho ainda percorre a aldeia. Ainda há, aqui e ali, vestígios de uma festa que durou quase até ao amanhecer, trazendo nostalgia aos mais velhos e brincadeira, esperança e muita alegria aos mais jovens.


Maria Odete Madeira
(Chanceler-Mor da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, “Grão Vasco”)

quinta-feira, 13 de março de 2008

O JOGO DA REZA


“ – Mingar, mingar,
para sempre rezar.
– Reza!...”

O mandar rezar, era um jogo de meninos e decorria por toda a Quaresma, tendo o seu términos no Sábado Maior ao toque da Ressurreição do Senhor que acontecia, por estas terras, ao meio dia.
Este jogo iniciava-se logo após o fim do Carnaval e tinha o seguinte ritual: os meninos enganchavam os dedos mindinhos, normalmente os da mão direita, e diziam, abanando a mão:
“ – Mingar, mingar,
para sempre rezar.
– Reza!...”
Após este ritual, combinava-se o que cada um teria, caso perdesse, de dar ao outro no fim do jogo que só terminava, como já foi dito, no Sábado maior. O compromisso de mandar rezar estava selado e cada um deles já sabia que, Quaresma fora, cada vez que passasse pelo parceiro de brincadeira, teria de o mandar rezar. Se o não fizesse, não vinha daí mal ao mundo uma vez que não perdia nem ganhava nada com isso. Só no Sábado Maior é que a brincadeira era realmente levada a sério. Quem neste dia fosse mais lesto e mandasse rezar o parceiro primeiro, recebia do perdedor a paga estipulada no início do compromisso: amêndoas, línguas de gato, beijinhos e outras iguarias pouco habituais ao longo do ano mas que nesta época sempre apareciam um pouco por todas as casas da aldeia.
Neste dia era ver a pequenada, cosida às paredes, a tentar chegar, sem ser notada, junto dos parceiros e, apanhando-os desprevenidos, mandá-los rezar. As artimanhas eram mais que muitas. Pelos quinteiros, colados aos muros, à espreita por uma qualquer fisga na parede, lá estavam, horas a fio à espera. Quantos não se escondiam dentro de suas casas e pelos postigos mandavam rezar o parceiro que á esquina da rua esperava, pacientemente, a saída do colega de brincadeira. Outros escondiam-se nos sótãos e levantando, habilmente, uma telha lá apanhavam os parceiros desprevenidos. Valia tudo!
– Reza, Maria.
– Reza, Jaquim.
– Reza, Manel...
Reza...; Reza...; Reza..., ouvia-se ecoar, um pouco, por toda a aldeia. O perdedor, furioso por ser apanhado, ainda argumentava que não valeu porque..., que o outro fez batotice..., e tal e tal..., mas já não havia volta a dar, teria mesmo de pagar a dívida que, regra geral, era levada a sério e sempre saldada no dia seguinte. Estes Homenzinhos de palmo e meio, honravam sempre a palavra dada.

A título de curiosidade:

Por estas bandas, dizia-se: “ – Mingar, mingar,
para sempre rezar.
– Reza!...”
Em terras de Lafões, o ritual era, ligeiramente, diferente:
“ – Enganchar, enganchar
para dia de Páscoa me dares o folar.
De hora em hora, dia em dia,
Até Sábado de Aleluia.
– Reza.”
No Alto Paiva, os meninos enganchavam os dedos e diziam:
“ – Enganchar, enganchar,
para em toda a Quaresma
te mandar rezar.
– Reza.”
Era assim por toda a Beira e, com pequenas variantes, um pouco por todo o país.

Maria Odete Madeira
(Chanceler-Mor da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, “Grão Vasco”)