
sexta-feira, 1 de maio de 2009
BEIRÕES DE MÉRITO 2009

terça-feira, 7 de abril de 2009
OVOS DA PÁSCOA
Que sabor tão característico e apetecido nesta época do ano!
Esmeradamente, coloridos com cores garridas ou, simplesmente, tingidos com cascas de cebola – material de fácil acesso em todas as casas, ricas e pobres, das aldeias – folhas de hera, que lhes conferem uma tonalidade amarelada, ou beterraba, dando-lhes uma cor vermelha forte, surgem em todas as mesas na época festiva da Páscoa, em casa de cristãos e não cristãos.
As habitações, nesta quadra da Ressurreição do Cristo Crucificado, enchem-se de alegria e cor: ele são as aleluias e o alecrim, enfeitando portas e gradeamentos na recepção festiva à visita do Senhor Ressuscitado, ele é a laranja com o tostão cravado, por sobre alvas toalhas de linho, na mesa principal da casa, ele é o pão de ló, os folares da Páscoa, as amêndoas, os ovos tingidos…
Os nossos avós, tal como muitos de nós hoje, ao prepararem os ovos da Páscoa, decerto ignoravam a origem deste costume milenar, adoptado por diferentes culturas, crenças e religiões e alegremente posto em prática todos os anos, nesta época – o ovo é símbolo de vida, de nascimento e é natural que o povo tenha fixado a tradição na quadra Pascal, também ela plena deste espírito de ressurreição e vida (a título de curiosidade, este costume de origem não católica – há registos de oferendas de ovos entre os povos pagãos como símbolo comemorativo da chegada do equinócio da Primavera – passa oficialmente a ser símbolo católico no século XVIII, quando a Igreja o adopta como elemento de ressurreição e vida).
No entanto, a tradição de presentear a família e amigos com ovos coloridos, remonta aos chineses ancestrais e a época por eles escolhida para esta oferta era a comemoração da festa da Primavera – toda ela imbuída de sentimentos de vida, de renascimento, de esperança.
Adoptada, como já foi dito, por diferentes culturas, esta tradição correu mundo, mantendo-se até hoje.
No Egipto, as pessoas têm o hábito de distribuir ovos entre si, no início da Primavera, celebrando, festivamente, a chegada desta estação. Na Europa Ocidental, os ovos são cozidos e decorados com cores garridas, servindo, depois, para decorar as mesas ou serem ofertados a familiares e amigos no dia de Páscoa. Na Europa Oriental, existe o costume de as crianças esconderem um chapéu e, se o seu comportamento tiver sido bom ao longo do ano, encontrarão nele os ovos na noite anterior ao Domingo de Páscoa, como recompensa. Nos Estados Unidos, há o costume da “caça ao ovo” que, em algumas cidades, se transformou em autêntico evento comunitário. Os ovos são escondidos em casas, quintais e jardins, havendo uma verdadeira correria em busca deles. Na América Latina e Brasil, as crianças constroem ninhos de Páscoa que servem para o coelho – portador dos ovos da Páscoa e simbolizando, também, tempos de mudança ao sair da toca na época primaveril – pôr os ovos na madrugada da Páscoa. Na China celebra-se, no mesmo período, o chamado Ching-Ming ou seja, a festa da “Suprema Claridade” também conhecida como a festa da “Limpeza dos Túmulos”, levando milhares de chineses, em verdadeira romaria, aos túmulos dos seus entes mais queridos para os homenagear. Os túmulos são limpos, as pinturas reavivadas e as ofertas das mais variadas: incenso, bebidas, tabaco, patos e leitões assados, doces e outras tantas iguarias onde os ovos também imperam.
A tradição dos ovos de Páscoa, também foi apropriada pelo povo português. Desde há anos nas nossas casas, eles embelezam a mesa, eles são ofertados a familiares, a amigos e a afilhados – como elemento sagrado, como símbolo de vida ou, simplesmente, como uma das muitas tradições a preservar.
Maria Odete Nunes Madeira
Passos de Silgueiros, 12 de Fevereiro de 2007
(Chanceler-Mor da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, “Grão Vasco”)
Festa da Primavera e Sessão do Nobre Senado
Data: Viseu, 5 de Abril de 2009
Assunto: Jantar de Aniversário e Capítulo de Primavera - Prémios “Beirão de Mérito” e Nobre Senado Dia: 24 de Abril, sexta-feira, 20:00h Local: PRUVOR Eventos – Qta do Pruvor – Fail |
Caros Confrades,
Com o pretexto de assinalar a chegada da Primavera e a passagem de mais um aniversário da nossa Confraria, vamos promover mais um momento de confraternização. Como vem sendo hábito, e porque o momento é de festa, este é, também, o evento que marca a atribuição do Prémio “Beirão de Mérito”, a forma encontrada pela Confraria para premiar personalidades e/ou instituições que, de diferentes formas, têm contribuído para a promoção e divulgação das terras da Beira.
Dando cumprimento ao plano de actividades, o Jantar será precedido da Sessão do Nobre Senado.
Contamos com a presença de todos os confrades neste jantar desafiando-os a provar a ementa que seleccionámos, e que se propõe conciliar os sabores tradicionais da Beira com a cozinha moderna.
Ementa Para começar, Salpicão, presunto, chouriço, queijo da serra, bolinhas de carne, pastéis de bacalhau, orelheira, salada de polvo e carapauzinhos fritos, feijoca, morcela da Beira com maçã caramelizada, rojõezinhos com cominhos e pernil. Sopa Sopa de legumes com aroma de presunto. Os quentes, Bacalhau com crosta de broa de milho, batatas assadas e couve com aroma a alho e azeite e Lombinho de porco recheado com figos e amêndoa servido com migas de alheira de caça. Para terminar, Maçã Assada recheada com leite-creme, Fruta Laminada, Espetadinhas de fruta natural e Bolo de Aniversário. As bebidas, Água, Vinho Branco e Tinto do Dão, Café e Espumante |
Custo de participação: 25,00 €
Inscrições até ao dia 20 de Abril para:
Confraria de Saberes e Sabores da Beira Grão Vasco – Av. Gulbenkian, 22, r/ch, 3510-055
José Ernesto – 917601211; Marina Barreiros – 965887580; Paula Teixeira – 939908098
Saudações Beirãs
O Almoxarife
(José Ernesto Pereira da Silva)
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Trazer Traje Confrádico
segunda-feira, 16 de março de 2009
AMENTAR OU EMENTAR AS ALMAS
Um pouco por todo o lado, homens, nalgumas regiões, mulheres, noutras e homens e mulheres, noutras tantas, juntavam-se no período quaresmal para, diariamente, cantarem e rezarem às almas.
De essência cristã, a amenta, ementa ou encomendação das almas era uma das tradições quaresmais mais respeitadas e acarinhadas pelo povo português.
As almas dos entes queridos, sujeitas às penas do purgatório, necessitavam das preces dos vivos para alcançarem a vida eterna. Quaresma fora, em condições climatéricas tantas vezes adversas, o grupo da ementa das almas ia para a rua cantar e rezar às almas, no sentido de que, quem, no quentinho dos seus lares o ouvia, se lhe juntasse nas preces pela salvação de parentes e amigos falecidos:
“Ó irmãos que estão na cama
nesse sono tão profundo,
lembrai-vos das vossas almas
que lá estão no outro mundo.”
P. N. A. M.
Pouco antes da meia-noite, um a um o grupo ia-se concentrando no adro da igreja. Ninguém falava; ninguém olhava para trás. O medo impedia-os de quebrar a tradição; as almas penadas, os fantasmas, as figuras mais ou menos grotescas e fantasmagóricas que povoam as noites e o imaginário de tantos, rondavam o lugar esperando um deslize, atacando os incautos. Grupo completo, tocava a campainha e iniciava-se o ritual. Todos se benziam e o cântico começava:
“Na hora de Deus começo,
Pai, Filho e Espírito Santo
Por ser o primeiro verso
Que neste auditório canto.”
P. N. A. M.
Seguiam-se sete poisos. O mesmo ritual. Durante quarenta dias ouvia-se por toda a aldeia o cântico arrepiante e lúgubre do amentar das almas. Em casa, tremendo de medo por sob as cobertas, as pessoas rezavam, fervorosamente por pai, mãe, filho ou marido já desaparecidos. Em Sábado Maior tudo terminava em grande festa de alegria e Ressurreição. Durante o dia preparavam-se coroas, desfolhavam-se flores que iriam embelezar cada um dos sete poisos no final de cada cântico. O grupo finalizava o ritual na capelinha da Senhora da Guia, no bairro do Cimo da Aldeia. Terminado o amentar, ainda em silêncio, o Zé Alho, o mais velho do grupo, dava o tom e todos cantavam um cântico final a Maria, pedindo protecção para as suas próprias almas:
“Nome de Maria,
Que tão lindo é
Salvai a minha alma
Que ela Vossa é.”
Quaresma, quarenta dias de jejum e abstinência que medeiam entre a Quarta-Feira de Cinzas e a Páscoa, dia grande da festividade da Ressurreição de Cristo. Em termos bíblicos, o número quatro simboliza o universo material, as provações, dificuldades, sacrifícios, por que passa a Humanidade na sua passagem pelo mundo terreno.
Quaresma, quarenta dias de sacrifício, provação e penitência de Jesus no deserto.
Quaresma, quarenta dias de abstinência, reflexão e penitência dos crentes; quarenta dias de sacrifício e penitência pela salvação das almas; quarenta dias de sacrifício e penitência do grupo da amenta pela expiação das próprias falhas preparando, assim antecipadamente, a entrada no Céu quando a hora de cada um fosse chegando.
Maria Odete Madeira
Passos de Silgueiros, 2 de Março de 2009
(Chanceler-Mor da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, “Grão Vasco”)
MARIA CARPUÇAS
Durante todo o longo período do tempo santo da Quaresma, o povo, temente a Deus e respeitador das tradições da sua religião, punha de parte as danças e folguedos. Trocava-os pelo recolhimento, pela ponderação.
Nestas sete semanas, a excepção era a quarta-feira do meio da Quaresma. Nessa noite, rapazes e homens podiam, à vontade, dar livre expressão ao seu desejo de folgar, bloqueado desde Quarta-Feira de Cinzas; apenas durante uma noite, mas sempre bem aproveitada.
Reunidos em grupos de duas dezenas ou mesmo mais, chefiados pelo testamenteiro, vulgarmente chamado pregador, faziam-se acompanhar de grandes chocalhos e lataria, tudo quanto pudesse fazer barulho. E também do cortiço e do serrote; para serrar com grande e característico ruído — para serrar a velha.
A escolhida, como se depreende, era sempre senhora idosa. Das mais velhas da aldeia.
E para ser uma boa escolha, tinha de ser alguém que tivesse filhos — para que os serradores pudessem ser considerados seus netos — mas que, acima de tudo, se revelasse o mais possível avessa à função.
As que, logo de início, reagiam com palavras amigas, convidando: — Vinde, meus netinhos, vinde beber qualquer coisa, que deveis estar cansados — eram de imediato deixadas em sossego, por demasiado pacíficas e, por isso, sem interesse.
Boa para a luta desejada era, todos os anos, a ti Maria Carpuças. Primeiro do postigo, depois do patamar do seu cardenho, respondia ao desafio com impropérios, com insultos, com palavrões.
De baixo, a malta, chefiada por ti Diamantino, começava:
— Chorai, netinhos chorai, que a vossa avó vai morrer. E toda a gente respondia ao convite, em altos gritos, "chorando" a perda iminente daquela "avó".
E chocalhava. E chocalhava, num barulho infernal.
Era o início de uma batalha que só vinha a terminar quando entendiam que a velha estava devidamente serrada. E sempre tendo em conta as suas reacções mais ou menos violentas.
O testamenteiro continuava:
— Ó velha, aqui estão os teus queridos netos. Sabemos que vais morrer. Antes, porém, precisas de fazer o teu testamento, das palhas que leva o vento. Diz-nos, pois, as tuas deixas:
— A quem deixas a tua galinha? — À minha melhor vizinha.
— E o teu rosário de agonia? — Ao padre da freguesia.
— E a quem deixas a palha do teu colchão? — Essa é para o ninho do meu cão.
— E para quem fica o teu tonel? — É para o meu filho Manuel.
Sempre rimando, o testamenteiro lá dava a volta a todos os haveres. Fazendo as perguntas e dando as respostas, conseguia verdadeira crítica social, pelas pessoas que associava aos objectos a doar.
Chorai netinhos, chorai,
Que a nossa avó vai morrer;
Lágrimas de quatro a quatro
Não a deixeis esquecer.
De novo o choro, os gritos, as lamentações. E os chocalhos, o barulho infernal.
Estava terminado o testamento e a chegar ao fim a serração daquela velha, a ti Maria Carpuças. Que, entretanto, estava completamente rouca de tanto berrar, de tanto barafustar, de tanto insultar. E cansada também de arremessar sobre o inimigo tudo quanto pudera armazenar para o efeito: água, pedras, cavacas, líquidos orgânicos.
O testamenteiro, antes de terminar, ameaçava ainda:
— Ó velha, se desta escapares, fica já combinado que, para o ano, cá voltaremos para te serrar. E para isso, fica também já nomeado o José Silva de Vila Nova, que tem um irmão que te espeta e outro que te leva à cova.
Era o fim.
A malta partia, finalmente, entre grande chocalhada e vozearia.
Mais adiante, em absoluto silêncio, marchava a caminho da próxima vítima.
António Lopes Pires







