
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
ENTRUDO
Os grandes dias eram o Domingo Gordo e o Dia de Entrudo. A dança começava cedo. Novos e velhos estavam presentes: para dançar; para ver; para parodiar; para aplaudir. As danças de todo o ano enchiam a tarde. A Delina da Pedra e a Maria da Maça eram as principais, chamando para a roda, criticando os ausentes:
Quem seria a mascareta?
Quem seria a mascarota?
Mascareta que não dança,
Olha a mim que se me importa!
E continuavam com um sorriso maroto, ao mesmo tempo que se abraçavam alternadamente ao par da esquerda e ao da direita:
Dá-me um só beijo,
Dá-me um só dá;
Mascareta que não dança,
Olha a mim que se me dá.
O Manel da Inácia muito gostava desta dança! E o que ele sofria? Aquele afago da Delina – braço suavemente poisado em volta do seu pescoço, cabeças encostadas, faces quase se roçando…
- Dá-me um só beijo…
Deixava-o sufocado. O raio da rapariga dançava com ele horas a fio, dava-lhe todos os entenderes, mas aceitar o seu amor, isso mais devagar. Como dizia a Helena do Pífaro:
- Trázio à corda!
De repente, a roda partia, a dança parava. Eram o Manel da Grila, o Zé Bisnau e os outros. Haviam-se aproximado sem dar nas vistas, disfarçadamente. De supetão, saltavam para elas – a enfarinhar, a enfarruscar, a enfarinhar, a enfarruscar. Gritos, algazarra, gargalhadas, alguns insultos pelo meio.
Pouco depois, tudo voltava ao normal. Do incidente, que se repetiria vezes sem conta, ficavam no ar os últimos comentários e sorrisos:
- Por esta não esperavas, ó Toino.
De verdade, aquela Gracinda da Feira tinha força como um burro. Os seus braços castigados por horas e horas a tirar água de balde no engenho da Felgueira, aguentaram o embate mantendo o inimigo à distância.
- Botei-lhe a mão esquerda ao cachaço, dizia, saboreando as palavras, que ele nem buliu. Só esperneava.
E enquanto isso, com a direita, sacou do bolso campeiro do avental um bom punhado de cinza que enfiou ao desgraçado pela boca, pelo nariz, por onde pôde. O triste, engasgado, a espirrar, a tossir, foi-se dali acagaçado, jurando vingança.
Depois eram os máscaros. Aos pares, isoladamente ou em pequenos grupos, muito bem disfarçados, de caras e até de mãos escondidas para não serem identificados.
O Samuel Alho, às tantas, passava com a sua funçanata. Mais de vinte máscaros. Ao som de infernal orquestra, iam evoluindo de acordo com o ensaiado e as ordens do mestre, dadas através de fortes assobiadelas.
Quem também nunca faltava era o Moira trazendo em cada ano uma novidade, com aquela sua graça natural que todos conheciam e apreciavam. Em grande penico de barro, comprado especialmente para o efeito, deitou uns bons cinco quartilhos de vinho branco onde pôs a boiar grandes pedaços de chouriça. Calmamente, sem pronunciar uma palavra, rua abaixo, rua acima, ia oferecendo do petisco. Caras horrorizadas, gestos a despedir o atrevido. Ele, então, tranquilamente, limpava o bigode às costas da mão e bebia do penico, piscando maliciosamente os seus olhos miudinhos.
O Toino manco não gostara nada do tratamento recebido da Gracinda. Uma destas nunca lhe acontecera. Vá que ele tinha um defeito na perna esquerda; mal de nascença a que ao tempo ninguém ligara; mas tinha força de homeme nunca fugira a brigar nem confessava medos. Porém, o raio da rapariga filara-o pelo pescoço com tais ganas que ele não teve tempo para mais nada. Depois, com a boca, o nariz e os olhos cheios de cinza, que mais podia fazer?
Saiu dali amarfanhado, mas garantindo que ela lhas havia de pagar.
Já noite entrada, passou por casa, foi à loja e pegou no panelão de barro preto de Molelos, já esbeicelado e rachado no fundo, onde deitara umas vinte dúzias de bugalhos que pacientemente havia juntado.
Panelão debaixo do braço, na calada, saiu pelo quintal do Chambelador, direito ao rio. O caminho era mais longo por ali; mas mais seguro. Pelo largo do Sanomédio havia ainda muita gente capaz de lhe descobrir as intenções e de deitar a perder todo o seu plano.
Com ligeireza atravessou as poldras saltando de pedra em pedra. O luar não era muito; mas dava para ver reflectido na água o seu sorriso de triunfador. Subiu a ladeira até à casa da Augustinha. Aí, coseu-se à parede e, pé ante pé, seguiu em frente.
No largo da Ferradora virou à esquerda. Trinta, quarenta passos adiante, lá estava a casa da Gracinda. Passou em frente para entrar pelas traseiras do cortelho, saltando o muro. Apurou o ouvido. Lá dentro conversava-se animadamente. Não dava para entender, mas não seria difícil adivinhar que falavam dos acontecimentos do dia, enquanto preparavam o caldo e as batatas da ceia.
O coração batia-lhe apressado. O panelão dos bugalhos parecia-lhe agora mais pesado. Tinha de subir os dez a doze degraus da escada que conduzia à varanda, donde, pela janela, o atiraria para o interior. Ouvia agora, claramente, a ti Laurinda:
- Queres mais caldo? Deixa ver a malga.
Iria em frente? Ou desistiria?
Afoitou-se. Subiu. Lá em cima, por uma frincha do postigo, viu passar uma réstia de Luz.
- Está só encostado
Avançou. De repente, empurrou o postigo e arremessou o panelão que, com enorme estrondo, se escaqueirou, espalhando os bugalhos por toda a casa.
Gritos, gritos e mais gritos foi o que se ouviu. Apanhadas assim de surpresa, outra coisa não puderam fazer.
Num pulo, perna fanfa a dar a dar, desceu as escadas para se pôr na alheta. Em baixo, hesitou. Por onde sair? No caminho já se ouviam vozes: da Augustinha, dos filhos e da Ferradora que, ouvindo o griteiro, acudiam pressurosos.
- Pelos quintais, pensou.
Deu meia volta e ele aí vai. Com a pressa e o escuro, junto ao poleiro das galinhas, aquele pé esquerdo fê-lo tropeçar em algo que o desequilibrou e deitou ao chão. Era um cântaro de barro que se espatifou completamente com o peso do seu corpo. Todo molhado, levantou-se e, sempre a correr, saltou o muro e desapareceu quintais adentro.
Lá longe, ofegante da corrida, mas radiante pelo sucesso da sua expedição, e vingado da vergonha da tarde, sentou-se para descansar. Estar assim todo molhado não lhe agradou; mas enfim…
- A roupa seca depressa.
Nisto, sentindo um cheiro desagradável à sua volta, um pensamento lhe passou pela cabeça:
- Será que…
Cheirou as mangas do casaco, o peito da camisa, as pernas das calças e torceu o nariz.
- Rai’s a partam. Pois não era o cântaro das couves?
Sim senhores. Era o cântaro onde a Gracinda, a mãe e a irmã mais nova vinham juntando, há mais de quinze dias, a urina que, depois de diluída em água, havia de adubar as couves do quintal.
António Lopes Pires
Quem seria a mascareta?
Quem seria a mascarota?
Mascareta que não dança,
Olha a mim que se me importa!
E continuavam com um sorriso maroto, ao mesmo tempo que se abraçavam alternadamente ao par da esquerda e ao da direita:
Dá-me um só beijo,
Dá-me um só dá;
Mascareta que não dança,
Olha a mim que se me dá.
O Manel da Inácia muito gostava desta dança! E o que ele sofria? Aquele afago da Delina – braço suavemente poisado em volta do seu pescoço, cabeças encostadas, faces quase se roçando…
- Dá-me um só beijo…
Deixava-o sufocado. O raio da rapariga dançava com ele horas a fio, dava-lhe todos os entenderes, mas aceitar o seu amor, isso mais devagar. Como dizia a Helena do Pífaro:
- Trázio à corda!
De repente, a roda partia, a dança parava. Eram o Manel da Grila, o Zé Bisnau e os outros. Haviam-se aproximado sem dar nas vistas, disfarçadamente. De supetão, saltavam para elas – a enfarinhar, a enfarruscar, a enfarinhar, a enfarruscar. Gritos, algazarra, gargalhadas, alguns insultos pelo meio.
Pouco depois, tudo voltava ao normal. Do incidente, que se repetiria vezes sem conta, ficavam no ar os últimos comentários e sorrisos:
- Por esta não esperavas, ó Toino.
De verdade, aquela Gracinda da Feira tinha força como um burro. Os seus braços castigados por horas e horas a tirar água de balde no engenho da Felgueira, aguentaram o embate mantendo o inimigo à distância.
- Botei-lhe a mão esquerda ao cachaço, dizia, saboreando as palavras, que ele nem buliu. Só esperneava.
E enquanto isso, com a direita, sacou do bolso campeiro do avental um bom punhado de cinza que enfiou ao desgraçado pela boca, pelo nariz, por onde pôde. O triste, engasgado, a espirrar, a tossir, foi-se dali acagaçado, jurando vingança.
Depois eram os máscaros. Aos pares, isoladamente ou em pequenos grupos, muito bem disfarçados, de caras e até de mãos escondidas para não serem identificados.
O Samuel Alho, às tantas, passava com a sua funçanata. Mais de vinte máscaros. Ao som de infernal orquestra, iam evoluindo de acordo com o ensaiado e as ordens do mestre, dadas através de fortes assobiadelas.
Quem também nunca faltava era o Moira trazendo em cada ano uma novidade, com aquela sua graça natural que todos conheciam e apreciavam. Em grande penico de barro, comprado especialmente para o efeito, deitou uns bons cinco quartilhos de vinho branco onde pôs a boiar grandes pedaços de chouriça. Calmamente, sem pronunciar uma palavra, rua abaixo, rua acima, ia oferecendo do petisco. Caras horrorizadas, gestos a despedir o atrevido. Ele, então, tranquilamente, limpava o bigode às costas da mão e bebia do penico, piscando maliciosamente os seus olhos miudinhos.
O Toino manco não gostara nada do tratamento recebido da Gracinda. Uma destas nunca lhe acontecera. Vá que ele tinha um defeito na perna esquerda; mal de nascença a que ao tempo ninguém ligara; mas tinha força de homeme nunca fugira a brigar nem confessava medos. Porém, o raio da rapariga filara-o pelo pescoço com tais ganas que ele não teve tempo para mais nada. Depois, com a boca, o nariz e os olhos cheios de cinza, que mais podia fazer?
Saiu dali amarfanhado, mas garantindo que ela lhas havia de pagar.
Já noite entrada, passou por casa, foi à loja e pegou no panelão de barro preto de Molelos, já esbeicelado e rachado no fundo, onde deitara umas vinte dúzias de bugalhos que pacientemente havia juntado.
Panelão debaixo do braço, na calada, saiu pelo quintal do Chambelador, direito ao rio. O caminho era mais longo por ali; mas mais seguro. Pelo largo do Sanomédio havia ainda muita gente capaz de lhe descobrir as intenções e de deitar a perder todo o seu plano.
Com ligeireza atravessou as poldras saltando de pedra em pedra. O luar não era muito; mas dava para ver reflectido na água o seu sorriso de triunfador. Subiu a ladeira até à casa da Augustinha. Aí, coseu-se à parede e, pé ante pé, seguiu em frente.
No largo da Ferradora virou à esquerda. Trinta, quarenta passos adiante, lá estava a casa da Gracinda. Passou em frente para entrar pelas traseiras do cortelho, saltando o muro. Apurou o ouvido. Lá dentro conversava-se animadamente. Não dava para entender, mas não seria difícil adivinhar que falavam dos acontecimentos do dia, enquanto preparavam o caldo e as batatas da ceia.
O coração batia-lhe apressado. O panelão dos bugalhos parecia-lhe agora mais pesado. Tinha de subir os dez a doze degraus da escada que conduzia à varanda, donde, pela janela, o atiraria para o interior. Ouvia agora, claramente, a ti Laurinda:
- Queres mais caldo? Deixa ver a malga.
Iria em frente? Ou desistiria?
Afoitou-se. Subiu. Lá em cima, por uma frincha do postigo, viu passar uma réstia de Luz.
- Está só encostado
Avançou. De repente, empurrou o postigo e arremessou o panelão que, com enorme estrondo, se escaqueirou, espalhando os bugalhos por toda a casa.
Gritos, gritos e mais gritos foi o que se ouviu. Apanhadas assim de surpresa, outra coisa não puderam fazer.
Num pulo, perna fanfa a dar a dar, desceu as escadas para se pôr na alheta. Em baixo, hesitou. Por onde sair? No caminho já se ouviam vozes: da Augustinha, dos filhos e da Ferradora que, ouvindo o griteiro, acudiam pressurosos.
- Pelos quintais, pensou.
Deu meia volta e ele aí vai. Com a pressa e o escuro, junto ao poleiro das galinhas, aquele pé esquerdo fê-lo tropeçar em algo que o desequilibrou e deitou ao chão. Era um cântaro de barro que se espatifou completamente com o peso do seu corpo. Todo molhado, levantou-se e, sempre a correr, saltou o muro e desapareceu quintais adentro.
Lá longe, ofegante da corrida, mas radiante pelo sucesso da sua expedição, e vingado da vergonha da tarde, sentou-se para descansar. Estar assim todo molhado não lhe agradou; mas enfim…
- A roupa seca depressa.
Nisto, sentindo um cheiro desagradável à sua volta, um pensamento lhe passou pela cabeça:
- Será que…
Cheirou as mangas do casaco, o peito da camisa, as pernas das calças e torceu o nariz.
- Rai’s a partam. Pois não era o cântaro das couves?
Sim senhores. Era o cântaro onde a Gracinda, a mãe e a irmã mais nova vinham juntando, há mais de quinze dias, a urina que, depois de diluída em água, havia de adubar as couves do quintal.
António Lopes Pires
sábado, 20 de dezembro de 2008
NATAL
Noite de muita alegria,
Anjos anunciam no céu!
Tangem liras; Tocam trombetas;
Adoremos! Adoremos!
Louvores ao Menino Deus.
Maria Odete Madeira
2001
Anjos anunciam no céu!
Tangem liras; Tocam trombetas;
Adoremos! Adoremos!
Louvores ao Menino Deus.
Maria Odete Madeira
2001
PROVERBIOS
Ande o frio onde andar, no Natal cá vem parar
Dia de S. Silvestre, não comas bacalhau que é peste
Dia de S. Silvestre quem tem carne que lhe preste
Depois que o Menino nasceu tudo cresceu
Dezembro quer lenha no lar e pichel a andar
Do Natal a Santa Luzia cresce um palmo o dia
Em Dezembro a uma lebre galgos cento
Em Dezembro descansa, em Janeiro trabalha
Em dia de Stª Luzia, mingua a noite e cresce o dia
Entre o Menino e Tomé três dias é
Festa do Natal no lar, da Páscoa na praça, do Espírito Santo no campo
Mal vai a Portugal se não há três cheias antes do Natal
Natal a assoalhar e Páscoa ao mar
sábado, 29 de novembro de 2008
A Delegação de Viseu da Fundação do INATEL e a Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco” vão organizar, em parceria, o “FESTA DA SOPA – VI FESTIVAL DO CALDO EDIÇÃO 2008”, que terá lugar no Pavilhão do INATEL de Viseu, no dia 06 de Dezembro.
Programa:15H00 – Inicio do Certame, Palestra sobre Nutricionismo, Venda de “Kits”;
16H00 – Degustação de Sopas, Animação musical;
Participam neste evento 40 Restaurantes do Distrito de Viseu, com a degustação de aproximadamente 60 sopas.
Edição total de 4.000 mil livros alusivos ao evento, contendo todas as receitas das sopas presentes.
Estima-se uma participação de 3500 a 4000 pessoas;
Entrada: 5,00 “colheres” por pessoa levando para casa o kit de recordação (Tigela, caneca e livro).
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