quarta-feira, 9 de abril de 2008

CONVOCATÓRIA

Nos termos do artigo 12.º do Regulamento Interno da Confraria, convoco o Nobre Senado para reunir, em Sessão Ordinária, no próximo dia 24 de Março (sexta feira) pelas 18.30 horas na Quinta da Madalena em Moure de Madalena com a seguinte

Ordem de trabalhos:

1 – Apreciação e votação do Relatório de actividades e das contas da Confraria respeitantes ao ano de 2007;

2 – Apreciação e votação do Plano de Actividades e Orçamento para o ano de 2007.


Nota: Se à hora marcada não existir “quórum” o Nobre Senado reunirá meia hora depois, com a presença de qualquer número de confrades.


Viseu, 17 de Março de 2008


O Grão-Mestre

(António Lopes Pires)

quinta-feira, 13 de março de 2008

VISEU, LINDA CIDADE MUSEU...

“Antiqua et nobilíssima”. Assim se define a cidade de Viseu numa legenda de brasão. Tão antiga que impossível se torna contar o tempo desde a sua fundação. De tal nobreza, que leva muito tempo a enumerar as residências de fidalguias antigas, a enumerar gente de bem multiplicada em gerações de anónimos obreiros de bem servir.
Implantada no centro da Beira, assenta seus fundamentos na solidez do granito que lhe define o carácter e historicamente lhe construiu seu corpo e, em inteireza igual, lhe moldou a alma.
(…)
Em sintonia com esta imagem, está o jeito do viver beirão de seus moradores e a cidade oferece-se como casa franca, com mesa posta sobre toalha de linho onde o pão tem ainda o sabor das origens e o vinho a cor e o paladar que traz das encostas soalheiras.


Alberto Correia
In, Viseu,
Editorial Presença,
Lisboa, 1989

O JOGO DA REZA


“ – Mingar, mingar,
para sempre rezar.
– Reza!...”

O mandar rezar, era um jogo de meninos e decorria por toda a Quaresma, tendo o seu términos no Sábado Maior ao toque da Ressurreição do Senhor que acontecia, por estas terras, ao meio dia.
Este jogo iniciava-se logo após o fim do Carnaval e tinha o seguinte ritual: os meninos enganchavam os dedos mindinhos, normalmente os da mão direita, e diziam, abanando a mão:
“ – Mingar, mingar,
para sempre rezar.
– Reza!...”
Após este ritual, combinava-se o que cada um teria, caso perdesse, de dar ao outro no fim do jogo que só terminava, como já foi dito, no Sábado maior. O compromisso de mandar rezar estava selado e cada um deles já sabia que, Quaresma fora, cada vez que passasse pelo parceiro de brincadeira, teria de o mandar rezar. Se o não fizesse, não vinha daí mal ao mundo uma vez que não perdia nem ganhava nada com isso. Só no Sábado Maior é que a brincadeira era realmente levada a sério. Quem neste dia fosse mais lesto e mandasse rezar o parceiro primeiro, recebia do perdedor a paga estipulada no início do compromisso: amêndoas, línguas de gato, beijinhos e outras iguarias pouco habituais ao longo do ano mas que nesta época sempre apareciam um pouco por todas as casas da aldeia.
Neste dia era ver a pequenada, cosida às paredes, a tentar chegar, sem ser notada, junto dos parceiros e, apanhando-os desprevenidos, mandá-los rezar. As artimanhas eram mais que muitas. Pelos quinteiros, colados aos muros, à espreita por uma qualquer fisga na parede, lá estavam, horas a fio à espera. Quantos não se escondiam dentro de suas casas e pelos postigos mandavam rezar o parceiro que á esquina da rua esperava, pacientemente, a saída do colega de brincadeira. Outros escondiam-se nos sótãos e levantando, habilmente, uma telha lá apanhavam os parceiros desprevenidos. Valia tudo!
– Reza, Maria.
– Reza, Jaquim.
– Reza, Manel...
Reza...; Reza...; Reza..., ouvia-se ecoar, um pouco, por toda a aldeia. O perdedor, furioso por ser apanhado, ainda argumentava que não valeu porque..., que o outro fez batotice..., e tal e tal..., mas já não havia volta a dar, teria mesmo de pagar a dívida que, regra geral, era levada a sério e sempre saldada no dia seguinte. Estes Homenzinhos de palmo e meio, honravam sempre a palavra dada.

A título de curiosidade:

Por estas bandas, dizia-se: “ – Mingar, mingar,
para sempre rezar.
– Reza!...”
Em terras de Lafões, o ritual era, ligeiramente, diferente:
“ – Enganchar, enganchar
para dia de Páscoa me dares o folar.
De hora em hora, dia em dia,
Até Sábado de Aleluia.
– Reza.”
No Alto Paiva, os meninos enganchavam os dedos e diziam:
“ – Enganchar, enganchar,
para em toda a Quaresma
te mandar rezar.
– Reza.”
Era assim por toda a Beira e, com pequenas variantes, um pouco por todo o país.

Maria Odete Madeira
(Chanceler-Mor da Confraria de Saberes e Sabores da Beira, “Grão Vasco”)

O CALDO TRULURU

A. Lopes Pires


Para o povo português, no passado, um passado ainda não muito distante, sobretudo para as populações do nosso interior serrano, inóspito e agressivo, o caldo constituiu a grande, quando não a sua única forma de cumprir as refeições do dia-a-dia.
A panela – ó que belas e saborosas as panelas de ferro, de três pernas – posta ao lume logo pela manhã, ali se mantinha o dia inteiro, sempre pronta a responder, enquanto podia, às muitas solicitações dos membros da família, principalmente da canalha miúda, que por ali passava em busca de com que compor estômagos famintos, cedo dilatados por quantidades suprindo qualidade.
Seu complemento natural era o pão, o pãozinho de Nosso Senhor de que não se podia perder migalha por mais ínfima, a broa do milho da nossa Beira, esmiolado para engrossar um pouco mais, sempre cultivado com geral carinho e mil canseiras:
Eram as sementeiras começadas ainda o dia era noite e tantas vezes terminadas quando o dia já não era.
Ele eram as sachas e as mondas debaixo do sol tórrido, impiedosamente caído sobre as costas curvadas das mulheres que, em uníssono, alegravam os campos com as dolentes e tristes cantigas onde embrulhavam suas mágoas.
Ele eram as regas a balde dos porcos nos poços de cegonha do tempo dos moiros, a poder de braços moídos por tantas horas a fio empurrando para baixo, puxando para cima.
Ele eram as escanadas, o corte, a alegre escamisada onde a troco de muito trabalho gratuito e uma pouca de broa que umas pobres azeitonas ajudavam a engolir e, quem sabe, uma pinga de água-pé, talvez se pudesse roubar um beijo saboroso.
Ele era a malha já na eira ao som de cantilenas mais parecendo urros furiosos de quem vê as forças a minguar e o que-fazer nem por isso.
Ele era, enfim, o guardar em arcas, mais vezes arquinhas que arcazes, o resultado de tão canseirosas diligências.
Tudo por causa do pãozinho de Nosso Senhor, apanhado pressurosamente e com carinho, absolvido por carinhoso beijo, sempre que mãos descuidadas deixavam cair em terra qualquer migalho que fosse.
Pãozinho de Nosso Senhor que bem casava com o caldo da panela de três pernas, feito de couves ou nabiças, de feijão miúdo ainda não seco ou de abóbora, de cabeças de nabo ou de algumas plantinhas crescendo livremente por aí, muitas vezes aromatizado com outras também por aí crescendo.
Com o caldo truluru é que não. Com este caldo ninguém casava. Nem os espigos, nem os trêpelos, nem as batatas, nem as cebolas, nem os feijões, nem nada. Muito menos o pãozinho de Nosso Senhor.
Com este triste caldo, o caldo dos mais pobres, dos verdadeiramente miseráveis, só casavam as cabaças. Ainda verdes, cortadas aos pedaços, com umas areias de sal, lá ferviam, ferviam até que os dentes lhes pudessem entrar e até que dessem a ideia terem ajudado a engrossar aquela água chilra, uma triste augaritana . Era o caldo truluru que, como dizia o povo, ainda bem não está na boca, já está a sair do cu.

FESTIVAL DO CALDO 2007